ATIVIDADES DA VIDA DIÁRIA

( MEC – Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial)

A dificuldade na execução das Atividades da Vida Diária(AVD) é, sem dúvida, um dos grandes prejuízos acarretados pelacegueira e se não for devidamente considerada, levará oindivíduo à contínua dependência. O desenvolvimento dashabilidades necessárias para a realização das atividades cotidianas constitui um dos aspectos mais importantes de umprograma de educação ou de reabilitação.

Pouco adiantará à pessoa cega adquirir inúmerosconhecimentos teóricos ou habilidades, se não souberdesempenhar adequadamente as atividades comuns exigidaspara a participação em qualquer grupo, podendo comprometersua aceitação e conseqüente integração social.

Considerando os princípios de igualdade deoportunidades educacionais da Lei de Diretrizes e Bases daEducação Nacional, segundo os quais a educação de qualqueraluno com deficiência tem os mesmos fins da educação geral,o Programa de AVD deve ter como meta, proporcionar ao alunodeficiente visual a oportunidade de conquistar o espaço que lheé de direito como cidadão, buscando desenvolver a autonomiae independência para a real integração social.

O aluno com deficiência visual, como participante deum Programa de AVD, deve ter a oportunidade de desenvolveros outros sentidos remanescentes, mediante atividadesfuncionais contextualizadas, a fim de que se torne auto-suficientepara alimentar-se, vestir-se, executar as tarefas rotineiras do lar,conviver adequadamente e participar em sua comunidade.

Considera-se importante que os alunos com deficiênciavisual, por intermédio do interrelacionamento com outros colegasdeficientes visuais ou não, sejam respeitados e consideradosúteis. Para tanto é preciso que tenham a oportunidade deexecutar as mesmas atividades e tarefas como os videntes, oque se verifica no desenrolar do programa apresentado nasdiversas áreas da AVD.

As Atividades da Vida Diária se referem a umconteúdo curricular específico do processo de habilitação ereabilitação de crianças e adultos com deficiências. Desde asetapas mais precoces de estimulação até os programasindividuais ou em grupo de reabilitação de adultos, a aplicaçãodessas técnicas deve sempre levar em conta a flexibilidade.

Conceito

É o conjunto de atividades que visam aodesenvolvimento pessoal e social nos múltiplos afazeres docotidiano, tendo em vista a independência, autonomia econvivência social do educando com deficiência visual. Tem oobjetivo de proporcionar oportunidades educativas funcionaisque habilitem o aluno com deficiência visual a desenvolver, deforma independente, seu autocuidado e demais tarefas noambiente doméstico, promovendo seu bem-estar social, naescola e na comunidade.

Tem como objetivos:

•favorecer a aquisição de hábitos salutares naalimentação, na higiene, na saúde e no vestuário;•

observar as formas que o aluno utiliza para percebere interagir com o meio, ampliando e enriquecendo-as;•

proporcionar ao aluno segurança e confiança pelautilização integrada dos sentidos remanescentes;•

favorecer a aquisição de conceitos e pistas espaço-temporais e relações causais para o domínio e a organizaçãodo meio;•

estimular atitudes, habilidades e técnicas para odesenvolvimento de atividades na vida prática;•

estabelecer rotina diária na manutenção, ordem elimpeza da casa, escola ou escritório;•

orientar quanto a posturas, gestos e comunicaçãosocial;

• desenvolver habilidades da vida doméstica: culinária,jardinagem, domínio de equipamentos, artesanato, pequenosconsertos, atividades artísticas, etc.;

• orientar quanto à adequação social, etiquetas, boasmaneiras no trato diário, em restaurantes, festas, eventospúblicos e outros;•

propiciar vivências em atividades esportivas, lúdicase recreativas.

Recomendações do Programa de AVD

1.A pessoa que desenvolve um programa de AVDprecisa de tempo, paciência, compreensão, imaginação, sensocomum, flexibilidade, tolerância, coerência, conhecimento dapersonalidade, das dificuldades e das necessidades do deficientevisual, além de levar em conta as expectativas e os interesses deseu aluno.

2.O programa de AVD deve iniciar-se o maisprecocemente possível. Com intervenção apropriada e orientaçãoà família, muitas influências negativas podem ser compensadasou superadas.

3.O trabalho de AVD na etapa pré-escolar deve serdesenvolvido associado ao jogo, mediante rotinas e jogo depapéis, com a finalidade de estabelecer hábitos permanentes nacriança.

4.O programa de AVD deve ser desenvolvido a partirdo nível de experiência perceptiva, dos significados e do nívelconceitual do aluno.

5.O programa de AVD não deve ser deresponsabilidade exclusiva do professor da disciplina, masdesenvolvido em interdisciplinaridade com o Programa de OM,educação artística, física e outros.

6.Muitas atividades serão desenvolvidas pela família,que deve ser orientada para que o aluno tenha pleno domínio domeio e das atividades comunitárias.

7.As atividades devem ter como ponto de referênciaapenas o nível de desempenho das pessoas que enxergam, masfundamentalmente considerar as peculiaridades da cegueira, aforma diferenciada de perceber e de relacionar-se com o meio.

8.O processo metodológico para o desenvolvimentodas atividades de AVD é o da experimentação ativa, comdiscussão permanente com a pessoa e o grupo.

9. É de fundamental importância a real e constantemotivação no desenvolvimento do programa de AVD, a partirdo interesse, expectativa e realidade sócio-cultural do aluno.

10. Todas as técnicas de AVD são importantes paraque o aluno com deficiência visual atinja sua independência. Paratanto, não devem ser optativas em seus aspectos básicos.

11. As AVDs devem respeitar os valores de cada aluno,sem forçar nem pressionar jamais para que se realizemaprendizagens contra seus princípios (por exemplo, costumesreligiosos).

12. As AVDs devem ser ensinadas, considerando arealidade que cada aluno possui em seu ambiente, além disso,é conveniente que se conheça o uso de outros elementostemporariamente fora de seu alcance.

13. É essencial que as AVDs sejam internalizadas peloaluno deficiência visual, para serem aprendidas e usadaspermanentemente.

Programa Básico de Atendimento em AVD

O programa básico de AVD deve ter a preocupação deinstrumentalizar a pessoa com deficiência visual para buscarseus próprios interesses e possibilidades, a fim de promover odesenvolvimento de suas habilidades, alcançando autonomia eindependência nas atividades do cotidiano.

É sabido que a visão transmite ao indivíduo informaçõescom rapidez e precisão, antecipa e coordena os movimentos eações e responde por 80% do relacionamento do indivíduo como mundo. Portanto, são muitas e significativas as implicaçõesda deficiência visual na integração do indivíduo, visto que aausência de visão prejudica a compreensão do mundo, interferena qualidade de troca e solicitação com o meio, causa, muitasvezes, a privação de vivências, limitação de movimentos einterfere na orientação espacial.

Em vista de todas essas implicações, faz-se necessárioque o programa das AVDs, que congrega atividades com graude complexidade progressiva, seja desenvolvido de formasistemática, permitindo ao indivíduo ter contato com as técnicase/ou procedimentos para a aquisição das práticas, bem comofazer o questionamento delas, ter a oportunidade de compartilharexperiências, criar, planejar e experimentar.

O programa deve ainda favorecer o desenvolvimentoafetivo, cognitivo, social, lingüístico e perceptivo-motor do alunocom a perspectiva de proporcionar ao deficiente visual aindependência plena em AVD que é a base sobre a qual seacumulam todas as demais habilidades necessárias para suaautonomia e independência.

A iniciação nas AVDs, sem dúvida, começa no lar,devendo ser a escola a complementação delas. O professor,além de suas funções específicas, terá de orientar a família emcertos aspectos, principalmente pelo fato de que a maioriadesconhece as possibilidades de seus filhos e nem sabe tambéma forma correta de auxiliá-los. Não basta dar à criança aorientação verbal adequada para a realização de determinadatarefa, ela necessita de ajuda para a execução e a repetição da experiência em conjunto, com supervisão, para que possaexecutar com segurança e desembaraço.

O ato de vestir-se, por exemplo, constitui uma dificuldadedevido à variedade de cores e acessórios que deverão sercombinados, exigindo a participação de terceiros. No entanto,o ato de despir-se não constitui tanto problema, se bem que acriança deva ser orientada para estar atenta quando tira suasroupas, pois deve fazê-lo com certa ordem para poder encontrá-las mais tarde.

Se as AVDs forem realizadas de acordo com odesenvolvimento físico e mental da criança, teremos no futuroum adulto auto-suficiente e adaptado à realidade da vida. Deveser lembrado que, para o desenvolvimento das AVDs, podemser utilizados materiais comuns, sendo necessário, no entanto,maior tempo de execução, concretização e objetividade noensino.

A independência em AVD serve a duas finalidades, aprimeira, naturalmente, visa às atividades em si, pois é desejávele necessário que toda pessoa saiba vestir-se, alimentar-se, etc.A segunda finalidade visa às mesmas atividades, porém comomeio para o educando ou reabilitando deficiente visual chegara ser capaz de desempenhar seu papel de cidadão, de maneiracompleta, ou seja, na área da educação (estudar, freqüentarcursos, adquirir cultura), na área da recreação (lazer,sociabilidade, crescimento social) e na área do trabalho(qualificar-se, trabalhar e produzir).

A AVD deve proporcionar ao aluno com deficiênciavisual independência física e emocional que lhe permitaparticipar ativamente do ambiente em que vive.A metodologia utilizada para o início da aplicação dastécnicas de AVD deve considerar sempre a flexibilidade.Nenhuma técnica deve ser imposta, portanto, sugere-se que oeducando passe por uma entrevista, com o intuito de verificar anecessidade e os objetivos ou não de um programa, econseqüentemente estabelecer um plano de trabalho.

Este plano de trabalho poderá ser desenvolvido:•

pela família, com orientação do professor;•

pelo professor, em sala de aula, aproveitando osrecursos de que a escola dispõe.

A entrevista realizada com o aluno e com sua famíliaconstitui um recurso valioso que possibilita colher subsídiospara uma melhor programação, uma vez que ela deve sondaro perfil do aluno, mediante questionamentos sobre o que járealiza; como realiza; quais as dificuldades encontradas; emque necessita de orientação; e quais as expectativas emrelação à AVD, etc.

Após o estabelecimento da programação, sugere-seque a primeira atividade do aluno seja a de exploração natural eespontânea do ambiente a ser trabalhado bem como a doselementos nele existentes.

A etapa seguinte é a manipulação desses elementos,com a finalidade de conhecer suas características e função:como tocar os objetos, manipulá-los e saber utilizá-los.Opasso final é a utilização desses elementos, que consiste em:tocar os objetos, manipulá-los, conhecê-los, saber utilizá-los.

A utilização dos elementos é condição primária doprocesso de relacionamento indivíduo/meio. É importantelembrar que todo o trabalho a ser desenvolvido deverá partirdas vivências reais do educando, associando-as a outraspráticas do cotidiano.

Em todos os passos das atividades verificar-se-ão ashabilidades necessárias para sua execução, tais como:desenvolvimento sensório, perceptivo, motor, noções espaço-temporais, etc., uma vez que a qualidade do desempenho natarefa dependerá de vivências sucessivas nestes aspectos.

Exemplo:

Área: higiene corporal.

Atividade: limpeza e cuidados necessários com o corpo,requerendo:

• conhecimento das partes do corpo e suas funções;•

conhecimento dos materiais de higiene corporal;•

preensão dos materiais;•

percepção tátil-cinestésica da ação;•

percepção olfativa;•

planejamento do ato motor;•

ritmo e agilidade para execução.

É necessário lembrar que essas habilidades sãoimportantes para aprendizagem e eficiência nessa tarefa,além de importantes para o desenvolvimento integral doeducando. Exemplo: aprender a escovar os dentes ou lavar orosto requer o conhecimento anterior do uso da pia (abrir e fechara torneira, colocar pasta dental na escova, etc.).

Todo programa de AVD deve estar baseado ematividades bem dosadas, no tempo e ritmo próprio de cadaaluno, de forma que cada item seja explorado ao máximo, atéque o educando apresente desempenhos adequados e maiseficazes.

Síntese do Programa Básico de AVD

1. Higiene pessoal

•higiene bucal;

•higiene do rosto;•

higiene das mãos;

•higiene dos pés;•

higiene dos cabelos;•

higiene das unhas;•

higiene do ouvido;•

higiene do nariz;•

higiene dos olhos (prótese);•

higiene do corpo;•

higiene sexual (utilização de preservativo);•

higiene mental, etc.

Exemplo:

Área: higiene corporal, higiene das mãos e do rosto.Atividade: lavar as mãos e o rosto. Ações:

– abrir a torneira;

– molhar as mãos e o rosto;

– pegar o sabonete;

– ensaboar as mãos, envolvendo-as;

– escovar as unhas;

– ensaboar o rosto;

– assoar o nariz;

– enxaguar o rosto e as mãos;

– fechar a torneira;

– pegar a toalha;

– secar o rosto e as mãos;

– pendurar a toalha.

É importante ressaltar que essas seqüências naturais quequalquer criança aprende espontaneamente pela observaçãovisual, a criança com deficiência visual não as percebe, daí anecessidade de orientar, sistematizando e organizando aseqüência elaborada pela própria criança.

•identificar as peças do vestuário;•

vestir-se (camisetas, calças, saias, etc.);

•despir-se;

•calçar meias e sapatos;•

procedimento para dar laço e nó ;

•procedimento para abotoar e desabotoar;

•lavar peças do vestuário;

•engomar as roupas;•

reparos de roupas (alinhavar, fazer bainha…);

•dobradura de roupas;•

organização das roupas (gavetas, cabides…);•

higiene dos calçados, etc.

Exemplo:

Área: vestuário.

Atividade: vestir calça. Ações:

– localizar a cintura (cós);

– voltar a parte de trás da peça para o corpo;

– desabotoar ou abrir zíper;

– segurar pela parte da frente do cós;

– vestir uma perna até o joelho;

– vestir a outra até o joelho;

– puxar até a cintura;

– abotoar, fechar zíper ou colchete.

3. Atividades domésticas•

explorar e reconhecer ambientes;

• organizar e conservar o ambiente;

• limpeza em geral (varrer, lavar, encerar, aspirar pó);•

arrumação da casa ;•

utilização e conservação de eletrodomésticos e• noções preliminares para preparo de alimentos;•

preparo de alimentos simples;•

preparo de alimentos complexos.

 

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~ por Blog Acessibilidade em 1 de fevereiro de 2011.

2 Respostas to “ATIVIDADES DA VIDA DIÁRIA”

  1. Ola. adorei as dicas para trabalhar as AVDs.. Assim, sou professora de educação especial na educação infantil, e gostaria se possivel de algumas dicas, para trabalhar as avds dentro da educação infantil. Tenho pouca experiencia na area, portanto, estou recorrendo a sites, e materiais que tenham esses tipos de dicas… Meu aluno tem paralisia cerebral, limitação na sua coordenação motora,, Desde ja muito obrigada

  2. Adorei esses exemplos de AVD’s me ajudou muito para trabalhar com meus alunos. Gostaria de mais dicas e auxílio já que estou iniciando na educação especial…………

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